✠ Paixão de N. S. Jesus Cristo, segundo S. Lucas.
Naquele tempo, aproximava-se o dia da festa dos ázimos, que se chama Páscoa, e os príncipes dos sacerdotes e os escribas procuravam maneira de matar Jesus, mas temiam o povo. Ora, Satanás entrou em Judas, chamado Iscariotes, um dos Doze Apóstolos, o qual foi combinar com os príncipes dos sacerdotes e com os magistrados a maneira como havia de entregá-l’O. Alegraram-se estes, e ajustaram dar-lhe dinheiro. Judas comprometeu a sua palavra e procurava ocasião favorável para O entregar sem ajuntamento de povo.
Entretanto, chegou o dia dos ázimos, em que devia ser imolada a Páscoa. Jesus enviou, pois, Pedro e João, dizendo: ✠ «Ide preparar-nos Páscoa para a comermos». C. Eles perguntaram-Lhe: S. «Onde quereis que a preparemos?». C. Ele respondeu-lhes: ✠ «Logo que entrardes na cidade, encontrareis um homem, que levará um cântaro de água. Segui-o até à casa em que entrar, e direis ao pai de família dessa casa: «O Mestre manda dizer-te: «Onde está o aposento em que hei-de comer a Páscoa com meus discípulos?». Ele vos mostrará uma grande sala ornada. Preparai aí o que é preciso». C. Indo eles, encontraram como Jesus lhes dissera e prepararam a Páscoa.
Chegada a hora, Jesus assentou-se à mesa com os Doze Apóstolos, e disse-lhes: ✠ «Tenho desejado ardentemente comer convosco esta Páscoa antes de morrer; pois, digo-vos, não tornarei mais a comê-la, até que ela se cumpra no reino de Deus». C. Logo, segurando no cálice, deu graças a Deus e disse: ✠ «Tomai e distribuí-o entre vós, porque, digo-vos, não beberei mais do fruto da videira até que venha o reino de Deus». C. E, havendo segurado no pão, deu graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: ✠ «Isto é o meu corpo, que se dá por vós. Fazei isto em memória de mim». C. Tomou, também, igualmente, o cálice, depois de cear, e disse: ✠ «Este cálice é o Novo Testamento no meu sangue que será derramado por vós. Entretanto, eis que a mão do que me há-de entregar está comigo à mesa. Na verdade, o Filho do homem vai morrer, segundo o que está determinado; mas infeliz do homem por quem Ele há-de ser entregue!». C. Então começaram a perguntar uns aos outros qual seria o que faria tal coisa?! E levantou-se entre os Apóstolos uma contenda para saber qual deles se devia julgar o maior. Porém, Jesus disse-lhes: ✠ «Os soberanos dos povos dominam sobre estes, e os que têm autoridade neles são apelidados benfeitores. Mas vós não deveis ser assim; antes, o que é maior, entre vós, seja como o mais pequeno; e o que manda seja como o que obedece. Na verdade, qual será o superior? O que está à mesa ou o que serve? Certamente é o que está à mesa. Eu, porém, estou no meio de vós, como quem serve. Vós sois aqueles que haveis de permanecer comigo nas tentações; por isso vos preparo um reino, como meu Pai o preparou para mim, para que possais comer e beber à minha mesa no meu reino, e vos assenteis em tronos, julgando as doze tribos de Israel». C. Disse, então, o Senhor: ✠ «Simão, Simão, eis que Satanás vos tenta com instância para vos joeirar, como trigo; mas supliquei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, depois de te converteres, confirma os teus irmãos». C. Pedro respondeu-Lhe: S. «Senhor, estou pronto para ir convosco, quer para o cárcere, quer para a morte». C. Ao que Jesus lhe respondeu: ✠ «Digo-te, Pedro: não cantará hoje o galo sem que tu digas três vezes que me não conheces!». C. E continuou a dizer-lhes: ✠ «Quando vos enviei sem saco, nem bolsa, nem sapatos, porventura vos faltou alguma coisa?». C. Responderam-Lhe eles: S. «Nada». C. E prosseguiu: ✠ «Pois, agora, quem tem bolsa que a tome; e o mesmo quem tem saco; e aquele que o não tem venda a túnica para comprar espada; pois Eu vo-lo digo: é necessário que se cumpra em mim o que está escrito: «foi julgado como os malfeitores». Porquanto, as coisas que foram ditas a meu respeito aproximam-se do seu fim». C. Eles, porém, disseram-Lhe: S. «Senhor, estão aqui duas espadas». C. Jesus respondeu-lhes: ✠ «Basta!».
C. Havendo Jesus saído, dirigiu-se, segundo o costume, ao monte das Oliveiras, acompanhado dos discípulos. Quando chegou àquele lugar, disse-lhes: ✠ «Orai, para que não entreis em tentação». C. Depois afastou-se deles, à distância de um tiro de pedra, e, posto de joelhos, orava, dizendo: ✠ «Pai, se é do vosso agrado, afastai de mim este cálice! Mas que se não faça a minha vontade, e sim a vossa». C.E apareceu-Lhe um Anjo do céu, que o confortava. Entrando na agonia, rezava mais instantemente. Veio-lhe um suor, como gotas de sangue, que corria até à terra. Levantando-se da oração, veio ter com os discípulos, que achou dormindo, por causa da tristeza, e disse-lhes: «Porque dormis? Erguei-vos; orai, para não cairdes em tentação». C. Ainda Jesus falava, quando veio ter com Ele uma multidão de gente, na frente da qual vinha Judas, um dos Doze, que se aproximou de Jesus para o beijar. Jesus disse-lhe: ✠ «Judas, com um ósculo entregas o Filho do homem?!». C. Então, os que estavam com Jesus, vendo o que ia acontecer, disseram-Lhe: S. «Senhor, passemo-los à espada?». C. Logo um deles feriu um servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. Porém, Jesus, respondendo, disse: ✠ «Deixai-os por agora». C. E, havendo tocado na orelha do ferido, sarou-o. Depois, dirigindo-se aos que tinham vindo contra Ele - príncipes dos sacerdotes, magistrados do templo e anciãos - continuou: ✠ «Viestes com espadas e paus, como se Eu fora um ladrão? Quando estava todos os dias convosco no templo nunca ousastes pôr-me a mão; mas agora eis que chega a vossa hora e a do poder das trevas». C. E prenderam-n’O, conduzindo-O para casa do sumo sacerdote. Pedro seguia-O de longe.
Acenderam fogo no meio do pátio e assentaram-se em torno. Pedro estava no meio de todos. Viu-o uma criada, e, olhando-o fixamente, disse: S. «Este também estava com Ele». C. Pedro negou, dizendo: S. «Mulher, não O conheço». C. Passado pouco tempo, um outro, vendo-o, disse: S. «Tu também és dos deles». C. E Pedro respondeu: S. «Ó homem, não sou». C. Passado um intervalo, cerca de uma hora, afirmou outro, dizendo: S. «Com certeza este estava também com Ele, pois é galileu». C. Pedro disse: S. «Homem, não sei o que dizes». C. No mesmo instante cantou o galo; e, voltando-se o Senhor, fitou Pedro. Então lembrou-se este da palavra que o Senhor lhe havia dito: «Antes de o galo cantar, negar-me-ás três vezes». E, saindo do pátio, começou a chorar amargamente!
Entretanto, aqueles que haviam prendido Jesus, escarneciam d’Ele, batendo-Lhe. Vendaram-Lhe os olhos, batiam-Lhe no rosto e interrogavam-n’O, dizendo: S. «Adivinha quem te bateu?». C. Proferiram também muitas blasfémias contra Ele. De manhã cedo reuniram-se os anciãos do povo, os príncipes dos sacerdotes e os escribas e levaram Jesus a esse conselho, dizendo: S. «Se tu és o Cristo, diz-no-lo». C. Jesus respondeu: ✠ «Se vo-lo disser, me não acreditareis; e, se vos interrogar, me não respondereis, nem me deixareis ir embora. Contudo, depois disto, assentar-se-á o Filho do homem à direita do poder de Deus». C. Disseram então todos: S. «Portanto, és tu Filho de Deus?». C. Ele respondeu: ✠ «Vós dizeis que eu o sou». C. Continuaram eles: S. «Que mais provas queremos? Ouvimo-lo, dito pela sua boca». C. E toda a assembleia se levantou, conduzindo Jesus à presença de Pilatos. Começaram então a acusar Jesus, dizendo: S. «Encontrámos este homem sublevando a nossa nação, proibindo que se pague o tributo a César e dizendo que é o Cristo-Rei». C. Pilatos interrogou-O: S. «Sois o Rei dos judeus?». C. Jesus respondeu: ✠ «Tu o dizes». C. Então disse Pilatos aos príncipes dos sacerdotes e ao povo: S. «Eu não encontro crime algum neste homem». C. Porém, eles insistiam, dizendo: S. «Subleva o povo com a doutrina que ensina em toda a Judeia, começando na Galileia até aqui». C. Ouvindo Pilatos falar na Galileia, perguntou se este homem era galileu. Sabendo, pois, que pertencia à jurisdição de Herodes, remeteu-O a este, que se encontrava em Jerusalém naquele dia.
Herodes, vendo Jesus, alegrou-se muito, porque havia muito tempo já que tinha desejo de O ver, pois ouvia dizer a seu respeito muitas coisas e esperava vê-l’O praticar algum milagre. Dirigiu-Lhe, pois, muitas perguntas; mas a nenhuma Jesus respondeu. Estavam presentes os príncipes dos sacerdotes e os escribas, que O acusavam continuamente. Herodes, bem como os seus soldados, desprezaram-n’O e zombaram d’Ele. E vestiram-Lhe uma túnica branca, devolvendo-O Herodes a Pilatos. Neste dia reconciliaram-se Herodes e Pilatos e tornaram-se amigos, pois até então eram inimigos. Logo, Pilatos reuniu os príncipes dos sacerdotes, os magistrados e o povo, dizendo: S. «Apresentastes-me este homem como desorientador do povo; ora, interrugando-O diante de vós, lhe não encontrei nenhum dos crimes de que O acusais. Do mesmo modo Herodes (pois bem sabeis que lh’O enviei) nada apurou contra Ele que mereça o castigo de morte. Vou, pois, castigá-l’O, mas depois libertá-l’O-ei». C. Pilatos estava obrigado pela Páscoa a soltar um criminoso. E toda a multidão começou a gritar ao mesmo tempo; S. «Condena este e solta Barrabás». C. Havia Barrabás sido preso por causa de uma sedição que se fizera na cidade e de um homicídio. Novamente Pilatos, querendo soltar Jesus, lhes falou; porém, a multidão gritava cada vez mais, dizendo: S. «Crucificai-O, crucificai-O!». C. Pela terceira vez disse-lhes Pilatos: S. «Pois que mal fez Ele? Não encontro n’Ele nada que mereça a morte. Contudo, castigá-l’O-ei, e depois soltá-l’O-ei». C. Porém, eles instantemente clamavam, pedindo que fosse crucificado, sendo o clamor cada vez mais forte. Pilatos ordenou então que se fizesse como pediam, soltando o que estava no cárcere por causa do crime de homicídio e sedição, como reclamavam, e entregando-lhes Jesus, para que Lhe fizessem o que mais lhes agradasse.
(Hic genuflectitur, et pausatur aliquántulum)
Videns autem centúrio quod factum fúerat, glorificávit Deum, dicens: S. Vere hic homo justus erat. C. Et omnis turba eórum, qui simul áderant ad spectáculum istud et vidébant, quæ fiébant, percutiéntes péctora sua revertebántur. Stabant autem omnes noti ejus a longe, et mulíeres, quæ secútæ eum erant a Galilǽa, hæc vidéntes.
Quod sequitur, cantatur in tono Evangelii, et alia fiunt ut supra in Dominica.
Et ecce, vir nómine Joseph, qui erat decúrio, vir bonus et justus: hic non consénserat consílio et áctibus eórum, ab Arimathǽa civitáte Judǽæ, qui exspectábat et ipse regnum Dei. Hic accéssit ad Pilátum et pétiit corpus Jesu: et depósitum invólvit síndone, et pósuit eum in monuménto excíso, in quo nondum quisquam pósitus fúerat.